Brasil: O País do Retrocesso, segundo Análise de Fernando Schuler
O cientista político Fernando Schuler, em artigo para o Estadão, analisa o cenário político-econômico do Brasil, argumentando que o país se tornou 'o país do retrocesso'. Ele critica decisões federais como o aumento de supersalários no Congresso, a estagnação da reforma administrativa, o retrocesso em reformas da Previdência (reintroduzindo benefícios para agentes de saúde e aposentadorias aos 50 anos) e a piora da situação das estatais. Schuler atribui essa regressão à ausência de um projeto de país, ao foco na distribuição de gratuidades que aumentam a dependência do Estado e à despreocupação fiscal, em vez de priorizar o aumento da produtividade e reformas estruturais. Ele descreve o momento como um debate existencial entre um Brasil moderno e um arcaico.
Em uma análise contundente publicada pelo jornal Estadão, o cientista político Fernando Schuler declara que o Brasil se consolidou como "o país do retrocesso". Schuler argumenta que uma série de decisões e omissões federais recentes ilustram um preocupante declínio na gestão pública e na responsabilidade fiscal. Entre os exemplos mais notórios, ele destaca a aprovação da escala de trabalho 3x1 no Congresso, que, ao permitir a conversão de folgas em dinheiro, resulta em um aumento substancial de supersalários, frequentemente acima do teto do funcionalismo. A crítica se aprofunda ao mencionar que tal medida foi aprovada por voto simbólico, com pouca discussão e sem clareza sobre a origem dos recursos, evidenciando uma falta de transparência e compromisso com as finanças públicas. Esta situação, para Schuler, é um retrato fiel de um país que se desvia de reformas essenciais, cujas consequências se espalham por todas as regiões, incluindo o Amazonas, impactando indiretamente o planejamento e a execução orçamentária dos entes federativos.
O retrocesso, segundo a análise de Schuler, perpassa diversas esferas. Ele critica a estagnação da reforma administrativa, que, após ser anunciada como prioridade, não avançou. No campo da Previdência, o especialista aponta para o inexplicável recuo do Congresso ao reintroduzir a paridade e a integralidade para agentes de saúde – medidas extintas em 2003 – e ao permitir aposentadorias aos 50 anos, o que agrava o já frágil sistema. As empresas estatais também são alvo de críticas, com o país passando de um superávit de R$ 6 bilhões em 2022 para um déficit superior a R$ 5 bilhões no ano passado, em parte devido à flexibilização da Lei das Estatais e ao engavetamento do programa de desestatização. Tais movimentos reforçam a percepção de que o Estado brasileiro, ao invés de buscar eficiência, cede a pressões e interesses corporativos, com reflexos sobre a prestação de serviços essenciais e a distribuição de recursos que poderiam beneficiar as diversas regiões do país.
Para Schuler, esse cenário de regressão não é fruto de um "projeto" intencional, mas sim da ausência dele. Ele observa que a prioridade nacional tem sido a "entrega da gratuidade do dia", em detrimento do enfrentamento de temas complexos voltados para o aumento da produtividade. Essa fórmula perigosa, segundo o cientista político, se traduz em despreocupação fiscal, aumento de impostos, crescimento da dívida pública e a distribuição de programas de transferência de renda que, embora essenciais em parte, acabam por fazer crescer a dependência dos mais pobres em relação ao Estado. Essa abordagem contrasta fortemente com o ímpeto reformista que impulsionou a reforma trabalhista, o Marco do Saneamento e a autonomia do Banco Central, reformas que buscaram modernizar o país e teriam impactos positivos duradouros em todas as regiões, inclusive no Norte.
O articulista conclui que a captura do Estado pelas corporações é um sintoma claro de um país sem rumo, onde cada lobby bem estruturado busca sua fatia no bolo. A questão central, na visão de Schuler, não é meramente ideológica, mas sim civilizatória: o embate entre o país moderno e o arcaico, entre o foco nos interesses difusos da sociedade e o mando das corporações. Ele projeta que este será um "debate existencial" que o Brasil precisará enfrentar de maneira decisiva no ano de 2026, definindo o futuro da nação e a direção das políticas federais que inevitavelmente moldarão o desenvolvimento e as oportunidades para estados como o Amazonas. (Fonte: Estadão, via https://www.estadao.com.br/politica/fernando-schuler/nos-tornamos-o-pais-do-retrocesso/)