Petrobras e Shell Financiam Estudo Multimilionário de Carbono no Brasil, Gerando Debate sobre 'Greenwashing'
A Petrobras e a Shell estão financiando em conjunto, com um aporte total de R$ 108 milhões, um projeto de pesquisa com a USP para mapear o estoque de carbono em solos e florestas de todos os estados e biomas do Brasil. O estudo, batizado de Carbon Countdown, visa criar uma linha de base fundamental para o agronegócio e o emergente mercado de carbono. No entanto, a iniciativa gera controvérsia, com ONGs levantando preocupações sobre possíveis conflitos de interesse e 'greenwashing' por parte das empresas de combustíveis fósseis.
Tucupi

Destaque
Petrobras e Shell Investem R$ 108 Milhões em Estudo Nacional de Estoque de Carbono, com Debate sobre Impactos e Potenciais Controvérsias
A Petrobras e a Shell, duas das maiores companhias de energia global, anunciaram um investimento conjunto de R$ 108 milhões em um ambicioso projeto de pesquisa para medir o estoque de carbono em solos e florestas de todos os estados e biomas do Brasil. Batizado de Carbon Countdown, o estudo, que deve ser concluído até 2030, será conduzido em parceria com o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), vinculado à Universidade de São Paulo (USP). O objetivo primordial é estabelecer uma linha de base nacional sobre a quantidade de carbono armazenada na vegetação e no solo, uma demanda crescente do setor do agronegócio e um dado crucial para as discussões sobre o mercado de créditos de carbono, no qual o Brasil busca protagonismo. Este levantamento abrangerá diversas categorias de uso do solo, desde áreas agrícolas e de pecuária até florestas nativas e reflorestamentos, prometendo gerar mais de 250 mil amostras para análise detalhada em até um metro de profundidade, incluindo medições em mil parcelas florestais com autorização do Ibama. (Fonte: Jornal de Brasília)
O projeto se propõe a trazer maior integridade e acurácia aos dados de carbono do país, com o gerente de tecnologias de baixo carbono da Shell Brasil, Alexandre Breda, destacando a necessidade de o Brasil se posicionar como líder global na discussão sobre o tema. André Bueno, gestor de meio ambiente do centro de pesquisa da Petrobras, reforça o compromisso da empresa em monitorar o estudo de perto, avaliando e validando todas as metodologias e resultados gerados. Ambas as companhias justificam o aporte como um investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, conforme previsto em cláusulas contratuais de exploração junto à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Os resultados poderão, inclusive, ser aproveitados futuramente pela Petrobras para gerar créditos de carbono a partir de áreas conservadas ou da produção de biocombustíveis, conforme a empresa sinaliza, buscando direcionar esforços para os biomas com maior potencial de captura.
Contudo, a iniciativa não está imune a questionamentos. O envolvimento de empresas de combustíveis fósseis em projetos climáticos suscita preocupações em setores da sociedade civil. O Instituto Internacional Arayara, uma ONG ambiental, manifestou-se em nota conjunta com especialistas, levantando dúvidas sobre possíveis conflitos de interesse e a real agenda dessas corporações no mercado de carbono. A organização sugere que tais projetos poderiam servir para as petroleiras legitimarem a continuidade de suas atividades exploratórias, alegando investimentos em mitigação ou capitalização no mercado de créditos de carbono. Arayara alerta para o risco de que, mesmo com dados abertos, o projeto seja utilizado para consolidar créditos de carbono em operações que dependem da exploração de combustíveis fósseis, configurando o que alguns críticos denominam de 'greenwashing' ou meras estratégias de imagem.
Em resposta às críticas, Maurício Cherubin, coordenador científico do Carbon Countdown e professor da Esalq-USP, defende a participação das empresas, argumentando que elas têm uma responsabilidade frente às mudanças climáticas e que é justo que invistam recursos para ajudar a resolver o problema e gerar dados importantes para a formulação de estratégias ambientais futuras. O estudo, ao abranger todos os estados e biomas brasileiros, incluindo a vasta e vital região amazônica, terá reflexos diretos em como as políticas de conservação, o desenvolvimento sustentável e o potencial de geração de créditos de carbono serão percebidos e gerenciados localmente no Amazonas e em Manaus. A precisão dos dados poderá influenciar decisões sobre uso da terra, fiscalização ambiental e projetos de bioeconomia, tornando-se uma ferramenta crucial para entender os impactos e oportunidades na região, embora o debate sobre a integridade das ações de grandes corporações no cenário climático continue a ser um ponto de atenção para a sociedade.
Fonte: https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/petrobras-e-shell-financiam-estudo-para-medir-estoque-de-carbono-em-solos-e-florestas-do-brasil/
Comentários
Deixe seu comentário
Seja o primeiro a comentar!
