Lula celebra acordo Mercosul-UE após 25 anos, enquanto ambientalistas alertam para impacto na Amazônia
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia como '25 anos de sofrimento e tentativa', celebrando sua iminente assinatura como um marco para o crescimento econômico e reindustrialização do Brasil. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou a importância do tratado como a maior área de livre comércio do mundo. Apesar das projeções otimistas e da redução de tarifas em diversos setores, o acordo enfrenta forte oposição de agricultores europeus e grupos ambientalistas, que alertam para o risco de aumento do desmatamento na Amazônia devido ao incremento nas exportações agrícolas e de matérias-primas do Mercosul.
Tucupi

Destaque
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou o aguardado acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia como um processo de "mais de 25 anos de sofrimento e tentativa", um marco que, segundo ele, visa impulsionar o crescimento econômico e a reindustrialização do Brasil. A declaração foi feita nesta sexta-feira (16), no Museu Histórico e Diplomático do Itamaraty, no Rio de Janeiro, ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A assinatura do tratado, prevista para este sábado (17) em Assunção, no Paraguai, é vista por Lula como um momento histórico, capaz de criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, congregando cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB superior a US$ 22 trilhões. O presidente brasileiro enfatizou que o Mercosul não se limitará a ser um mero exportador de commodities para a UE, mas buscará produzir e vender bens industriais de valor agregado, com dispositivos que incentivam o investimento europeu em cadeias de valor estratégicas para a transição energética e digital.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, corroborou a magnitude do entendimento, descrevendo-o como um convite ao maior mercado e à maior área de livre comércio global. Ela destacou a crença de que o comércio internacional não deve ser um jogo de soma zero, mas sim um processo mutuamente benéfico. O acordo prevê a eliminação progressiva de tarifas em vasta gama de produtos. O Mercosul removerá impostos sobre 91% das exportações da UE, incluindo automóveis (dos atuais 35%), em um período de 15 anos, enquanto a UE fará o mesmo para 92% das exportações do Mercosul em até dez anos. Produtos agrícolas sensíveis também terão suas tarifas reduzidas ou cotas ampliadas, como carne bovina e queijos, representando um alívio fiscal estimado em mais de 4 bilhões de euros anualmente para as exportações da UE e oferecendo uma alternativa estratégica à dependência de mercados como o chinês, especialmente para minerais críticos.
Contudo, o tratado não está isento de críticas e controvérsias significativas. Agricultores europeus, em particular, têm protestado veementemente, expressando preocupações de que o acordo possa levar a uma enxurrada de importações baratas de produtos sul-americanos, como carne bovina, que supostamente não cumprem os rigorosos padrões ambientais e de segurança alimentar da UE. Apesar das garantias da Comissão Europeia de que os padrões da UE não serão flexibilizados e da inclusão de compromissos ambientais, como a prevenção de novos desmatamentos após 2030, grupos ambientalistas permanecem céticos. Organizações como "Amigos da Terra" classificaram o acordo como "devastador para o clima", alertando que a ampliação das exportações agrícolas e de matérias-primas dos países do Mercosul pode intensificar o desmatamento em áreas florestais, incluindo a Amazônia, impactando diretamente a biodiversidade e os ecossistemas da região.
Apesar da aprovação provisória dos países da União Europeia, nações como França, Hungria e Polônia inicialmente manifestaram oposição, embora a posição da Itália tenha mudado, permitindo o avanço. Para mitigar parte das resistências, a Comissão Europeia estabeleceu mecanismos de salvaguarda, permitindo a suspensão do acesso preferencial para produtos agrícolas sensíveis do Mercosul em caso de aumento significativo de importações ou queda de preços na UE, com um limite de 5%. Além disso, está em estudo a harmonização das normas de produção, especialmente em relação a pesticidas e bem-estar animal, com o objetivo de fortalecer os controles de importação. O próximo orçamento da UE também prevê um fundo de crise de 6,3 bilhões de euros para agricultores, além de 45 bilhões de euros em apoio, para cobrir eventuais impactos negativos nos mercados agrícolas, e haverá redução das taxas de importação de certos fertilizantes.
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