O Brasil entrou em um novo patamar estrutural de consumo de energia elétrica, com a demanda máxima horária do Sistema Interligado Nacional (SIN) ultrapassando consistentemente os 100 mil MW. Este aumento significativo, de cerca de 28% a 30% em quatro anos, é impulsionado por ondas de calor recorrentes que intensificam o uso de ar-condicionado, bem como por fatores estruturais como a expansão de data centers e a digitalização da economia. A análise da CNN Brasil aponta para um cenário climático potencialmente desafiador, com a transição de La Niña para El Niño prevista para o segundo semestre, o que pode resultar em menor volume de chuvas no Norte e Nordeste (incluindo a Amazônia) e maior irregularidade hídrica no Sudeste/Centro-Oeste. Esta combinação de alta demanda e variabilidade climática eleva o risco de acionamento de usinas térmicas mais caras, impactando o custo da energia e pressionando a inflação, com consequências econômicas para todas as regiões do país.
O Brasil registrou uma mudança estrutural e significativa em seu padrão de consumo de energia elétrica, operando agora em um novo e mais elevado patamar de demanda. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a demanda máxima horária do Sistema Interligado Nacional (SIN) ultrapassou a faixa histórica de 80 mil a 90 mil MW (megawatts) e, desde meados de 2023, orbita os 100 mil MW, com picos já atingindo mais de 105 mil MW. Este avanço representa um crescimento acumulado de aproximadamente 28% a 30% em apenas quatro anos, em comparação com os 82 mil MW registrados em 2021. A ruptura não se manifesta apenas sazonalmente, mas estabeleceu um novo piso operacional, indicando uma alteração permanente no perfil de consumo energético do país, conforme análise de Pedro Cortes para a CNN Brasil.
A elevação do consumo é impulsionada por uma combinação de fatores. Ondas de calor recorrentes são apontadas como um dos principais motores, intensificando o uso simultâneo de aparelhos de ar-condicionado nos setores residencial e comercial, com cada verão recente estabelecendo um novo recorde de carga. Contudo, fatores estruturais também contribuem substancialmente para este cenário, incluindo a expansão de data centers, a crescente digitalização da economia e o aumento da demanda elétrica em diversos setores de serviços e na indústria. Este panorama de alta demanda é crucial e adiciona uma camada de complexidade estratégica ao gerenciamento do sistema elétrico nacional, especialmente quando considerado o momento climático atual.
O país atravessa um episódio de La Niña, que historicamente favorece chuvas no Sul e em parte da Amazônia. No entanto, modelos do Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI/NOAA) indicam uma probabilidade crescente de transição para El Niño no segundo semestre deste ano. Este padrão, se confirmado, está associado à redução de chuvas no Norte e Nordeste, regiões que incluem áreas estratégicas para o abastecimento hídrico e a geração de energia no Amazonas e estados vizinhos, além de maior irregularidade hídrica no Sudeste/Centro-Oeste, onde se concentra grande parte da capacidade de armazenamento hidrelétrico. A combinação de uma base de demanda estruturalmente mais alta com a potencial redução das chuvas representa um risco hidrológico ampliado, mais complexo do que a crise de 2021, que ocorreu em um patamar de carga mais moderado, conforme destacado pela CNN Brasil.
As implicações econômicas são diretas e potencialmente significativas para todo o país, incluindo o Amazonas. Picos de demanda mais elevados aumentam a probabilidade de acionamento de usinas térmicas, cuja operação é consideravelmente mais cara que a geração hidrelétrica. Este movimento encarece o custo marginal da operação e pressiona o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), afetando diretamente os consumidores do mercado livre e, com defasagem, os do mercado regulado através das bandeiras tarifárias. A energia mais cara eleva os custos industriais e pode reforçar vetores inflacionários, impactando a economia regional e a nacional como um todo. O Brasil não enfrenta apenas um ciclo climático adverso, mas uma mudança permanente no patamar de carga, transformando o perfil de risco de episódico para estrutural.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/pedro-cortes/economia/macroeconomia/brasil-entra-em-novo-patamar-de-consumo-eletrico/